20 de janeiro de 2008

Tato...



Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço

Que pensamento,
A tua mão

E a retiraste.
Senti ou não?
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória

Fixa e corpórea
Onde pousaste

A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve! [...]
Como se tu,
S
em o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,

Súbito e etéreo,

Que nem soubesses

Que tinha ser.
Fernando Pessoa

7 de janeiro de 2008

Flores... :)



Não sei andar sozinho por essas ruas
Sei do perigo que nos rodeia
Pelos caminhos não há sinal de sol

Mas tudo me acalma no seu olhar...
Não quero ter mais sangue morto nas veias
Quero o abrigo do teu abraço
Que me incendeia, não há sinal de cais
Mas tudo me acalma no seu olhar...

Você parece comigo
Nenhum senhor te acompanha
Você também se dá um beijo dá abrigo
Flor nas janelas da casa
Olho no seu inimigo
Você também se dá um beijo dá abrigo
Se dá um riso dá um tiro....!

Não quero ter mais sangue morto na veia
Quero o abrigo do teu abraço
Que me incendeia, não há sinal de cais
Mas tudo me acalma no seu olhar...

Você parece comigo
Nenhum senhor te acompanha
Você também se dá um beijo dá abrigo
Flor nas janelas da casa
Olho no seu inimigo
Você também se dá um beijo dá abrigo
Se dá um riso dá um tiro...!

Cruzada
Tavinho Moura / Márcio Borges

Ainda que...



"... então, veremos face a face...
Agora conheço em parte;
então, conhecerei plenamente..."

6 de janeiro de 2008

Lembras da Estrela? Do Oriente?

[...]

Foi na estalagem ‘Os Quatro Caminhos do Mundo’ que os três reis viajantes se encontraram. Descobriram, então, que eram irmãos: todos vinham da mesma nostalgia, todos caminhavam em busca da mesma alegria.

Continuaram, então, juntos, a jornada, até que, noite já chegada, chegaram a um vilarejo. “Que vilarejo será esse?“, perguntaram. Beth-léhem: esse era o seu nome, gravado numa pedra. “Que estranho“, disse Gaspar, “aprendi tudo o que há para ser aprendido sobre reinos, províncias, cidades e vilas. Mas nunca vi esse nome em qualquer um dos livros que li“. Balt-hazar acendeu sua lâmpada de azeite e iluminou, com sua luz bruxoleante, o mapa que abrira sobre o chão. “Aqui está ela“, ele disse marcando com o seu dedo um lugar no mapa. “Beth-léhem. Fica precisamente na divisa entre dois grande reinos. À esquerda está o Reino da Fantasia. À direita está o Reino da Realidade. São reinos perigosos. Quem mora só no Reino da Fantasia fica louco. Quem mora só no Reino da Realidade fica louco. Para se fugir da loucura há de se ficar transitando de um para todo, o tempo todo. Somente os moradores de Beth-léhem estão livres da necessidade de estar, o tempo todo, indo de um reino para outro. Porque Beth-léhem fica bem na divisa...“.

No vilarejo todos dormiam. Era uma noite de paz. O ar estava perfumado com flores de jasmim e magnólia. E havia um brilho no ar – milhares, milhões de vaga-lumes estavam pousados sobre as árvores. No ar, o som de uma flauta de pastor...

A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, junto com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido.

Perceberam que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem para ela puderam ver, nela refletido como num espelho, o rosto da criancinha. E disseram: “O universo é um berço onde uma criança dorme!“.

Aí uma coisa estranha aconteceu: ao olhar para o nenezinho os reis perdiam a sua compostura real; eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim...

Os reis, em meio aos risos e vôos, olharam cada um para o outro e disseram: “Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança...“. Ato contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – coisas de adulto - e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros... Eram pesadas demais. E partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.

“Vou mudar de vida“, disse Gaspar. “É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo. Vou me transformar em poeta...“

“Eu também vou mudar de vida“, disse Balt-hazar. “É horrível estar rezando o tempo todo. Vou ser palhaço. O riso é o início da oração.“

Ao que Mélek-hor acrescentou: “E eu descobri o prazer supremo, que vem sempre acompanhado de alegria: brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta no Paraíso.“.

E assim partiram, cada um por num caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis...

(Rubem Alves, Transparências da eternidade, Verus, 2002)

"Outros Planos"


Olho pra trás diminuo a velocidade,
A verdade simplesmente não resiste...
As idéias, os sentidos,
Tudo que a gente pode ser...

Faço planos, crio mundos,
Desses de possuir e não ter...
Nas idéias os sentidos
Tudo que a gente pode ser...
(14 Bis)

29 de dezembro de 2007

Por isso, Somente...

"Ama-me por Amor Somente"

Ama-me por amor somente.
Não digas: "Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente
minh'alma em comunhão constantemente
com a sua".

Porque pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade
de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade.

Madre Teresa de Calcutá


Pra onde foi o 'chão'??!!

"Ouviu-se um som em Ramá,
o som de um choro amargo.
Era Raquel
chorando pelos seus filhos;
ela não quer ser consolada..."

27 de dezembro de 2007

Boa Noite

tudo ressoa
cada pessoa
responde ao som do trovão
quero as estrelas
preciso vê-las
trago perguntas nas mãos
veja que o tempo nao pára
mesmo que a noite perdure
olha a alegria na cara
feito manhã a subir
vem criança vem dançar
ninguém é senhor nesse mar
se o batuque é de escravo
toda esperança é de rei
sou capitão da noite
sou lua agora em surdina
voz da minha sina
soando aquilo que sou
vim pra deixar na madrugada
uma pegada de calor
vim pra saber o que restará
quando calar-se o tambor

(Chico Amaral)

"Le Fabuleux Destin...??"


Se a felicidade é isso...

Beleza E Canção
Fernando Brant
Nada de novo no meu mundo
Eu vivo o segundo
Meu tempo é o meu lugar
Nada me tira do meu rumo
Eu sigo o meu prumo
O meu jeito de ser
Nada espero que não tenha
O que vier que venha
Sem me atropelar
Tudo que quero é o mar aberto
É ter você bem perto
Olhar o seu olhar
Tudo é novo no meu mundo
Se seu sono profundo
Entrar no meu sonhar
Sua beleza me domar
Sua beleza me amar
Toda beleza é um espinho
Se ela está sozinha
Sem ninguém desfrutar
Toda beleza é tristeza
Se não tem a certeza
De alguém comtemplar
Toda beleza é uma chama
Que, acende e inflama
Paixão de encontrar
Toda beleza é uma alegria
Que incendeia o dia
Faz a vida cantar
Tudo é belo no meu mundo
E cabe no meu canto
No meu tempo e lugar
Tudo é claro no caminho
Se não estou sozinho
E alguém vai aguardar
Nada de novo no meu mundo
E o sol a cada dia
Na noite a escuridão
Tudo de novo no meu mundo
Comigo eu começo
Beleza e canção

23 de dezembro de 2007

Quanto custa? Nada?


Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir
   Tenho muito pra contar
Dizer que aprendi

E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri

Mas quem sofre sempre tem procurar
Pelo menos vir a achar
Razão para viver

Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar

(Azul da Cor do Mar - Tim Maia)


22 de dezembro de 2007

Natal...

"De Adão e Eva Deus fez nascer a humanidade.
Com Maria e José Deus fez nascer a Salvação da humanidade.
Cada um de nós faz parte deste plano de Deus.
Somos seus filhos, resgatados por Jesus.
A cada dia que passa estamos mais perto de estarmos na casa do Pai...
Estejamos atentos, caminhemos na mesma direção!
Deus quer nos reunir em sua casa, no céu...
... e é somente por isso que existe o Natal:
a Festa de Deus Pai reconciliando consigo seus filhos!"

Então, um Natal 'diferente' pra todos, afinal... "estamos indo de volta pra casa..."
Comunhão, serviço, adoração, aprendizagem... corações aquecidos pelo amor que provém de Deus... Nossa 'viagem', assim, será mais 'graciosa'... ;)

15 de dezembro de 2007

... a tão sonhada 'comunicação'!!!

[...] existe a barreira entre a imagem e a linguagem. A mente pensa em imagens, mas para se comunicar com outra deve transformar a imagem em pensamento e depois o pensamento em linguagem. Essa marcha, da imagem para o pensamento e para a linguagem, é traiçoeira. Acidentes acontecem: a rica e macia textura da imagem, sua extraordinária plasticidade e flexibilidade, suas nuanças emocionais e nostálgicas, privadas – todas são perdidas quando a imagem é transformada à força em palavras.
Os grandes artistas tentaram comunicar a imagem diretamente por meio da sugestão, metáfora, de façanhas lingüísticas que pretendiam evocar uma imagem similar no leitor. Mas eles acabaram compreendendo a inadequação de seus instrumentos para a tarefa. Ouçam o lamento de Flaubert, em Madame Bovary:

Enquanto a verdade é a
plenitude da alma que pode às vezes transbordar na pura insipidez da linguagem, pois nenhum de nós pode jamais expressar a exata medida de suas necessidades ou de seus pensamentos ou de suas tristezas, e a fala humana é como um tambor rachado em que tamborilamos ritmos ásperos para os ursos dançarem, desejaríamos compor uma música que derretesse as estrelas...
(O Carrasco do Amor, Irvin D. Yalom - pg. 195)

8 de dezembro de 2007

Tem Sentido??

Rua Da Passagem (trânsito)
Arnaldo Antunes / Lenine

Os curiosos atrapalham o trânsito
Gentileza é fundamental
Não adianta esquentar a cabeça
Não precisa avançar no sinal
Dando seta pra mudar de pista
Ou pra entrar na transversal
Pisca alerta pra encostar na guia
Pára brisa para o temporal
Já buzinou, espere, não insista,
Desencoste o seu do meu metal
Devagar pra contemplar a vista
Menos peso do pé no pedal
Não se deve atropelar um cachorro
Nem qualquer outro animal

Todo mundo tem direito à vida,
Todo mundo tem direito igual!

Motoqueiro caminhão pedestre
Carro importado carro nacional
Mas tem que dirigir direito
Para não congestionar o local
Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral
É melhor você chegar inteiro
Com seu venoso e seu arterial
A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial

Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual

Travesti trabalhador turista
Solitário família casal
Todo mundo tem direito à vida,
Todo mundo tem direito igual!

Sem ter medo de andar na rua
Porque a rua é o seu quintal
Todo mundo tem direito à vida,
Todo mundo tem direito igual!

Boa noite, tudo bem, bom dia,
Gentileza é fundamental
Pisca alerta pra encostar na guia
Com licença, obrigado, até logo, tchau.

Construção...

Salvapantallas
Jorge Drexler

Tengo tu voz, tengo tu tos,
oigo tu canto en el mío...

Rumbos paralelos, dos anzuelos
en un mismo río...

Vamos al mar, vamos a dar cuerda,
a antiguas vitrolas...

Vamos pedaleando contra el viento,
detrás de las olas...
Tengo una canción para mostrarte,
talvez cuando vaya....
Tengo tu sonrisa en un rincón
de mi salvapantallas...

Años atrás de pronto la casa
se llenó de canciones...

Músicas y versos que brotaban
desde tantos rincones...
Vamos al mar, vamos a dar guerra
con cuatro guitarras...

Vamos pedaleando contra el tiempo,
soltando amarras...
Brindo por las veces que perdimos
las mismas batallas...
Tengo tu sonrisa en un rincón
de mi salvapantallas...

7 de dezembro de 2007

Um anjo...

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar...
A cena repete, a cena se inverte,
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu

deixei de acreditar...

tua palavra, tua história,
tua verdade fazendo escola,
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar...

metade de mim agora é assim:
de um lado a poesia, o verbo, a saudade,
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim...


e o fim é belo, incerto... depende de como você vê...
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só...

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você!
Só enquanto eu respirar...

(O Anjo Mais Velho - Teatro Mágico)